sábado, 5 de março de 2016

O fermento dos fariseus e de Herodes






[Resumo traduzido do comentário 
NT FOR EVERYONE - Marcos 8.11-21]







11 Os fariseus vieram e começaram a interrogar Jesus. Para pô-lo à prova, pediram-lhe um sinal do céu. 12 Ele suspirou profundamente e disse: “Por que esta geração pede um sinal milagroso? Eu lhes afirmo que nenhum sinal lhe será dado”. 13 Então se afastou deles, voltou para o barco e foi para o outro lado. 14 Os discípulos haviam se esquecido de levar pão, a não ser um pão que tinham consigo no barco. 15 Advertiu-os Jesus: “Estejam atentos e tenham cuidado com o fermento dos fariseus e com o fermento de Herodes”. 16 E eles discutiam entre si, dizendo: “É porque não temos pão”. 17 Percebendo a discussão, Jesus lhes perguntou: Por que vocês estão discutindo sobre não terem pão? Ainda não compreendem nem percebem? O coração de vocês está endurecido? 18   Vocês têm olhos, mas não vêem? Têm ouvidos, mas não ouvem? Não se lembram? 19 Quando eu parti os cinco pães para os cinco mil, quantos cestos cheios de pedaços vocês recolheram?” “Doze”, responderam eles. 20 “E quando eu parti os sete pães para os quatro mil, quantos cestos cheios de pedaços vocês recolheram?” “Sete”, responderam eles. 21 Ele lhes disse: “Vocês ainda não entendem?”

Professores tem um tipo particular de tristeza no olhar quando eles explicam algo para um aluno o mais claro que eles podem, vezes seguidas, e o aluno não entende.

Parece que Jesus tinha esse olhar em sua face no final de sua conversa no bote.

E mais. Ele sabia a importância dos discípulos aprenderem a lição o quanto antes. As coisas estavam esquentando.

No começo da narrativa, os fariseus apareceram e pediram um sinal (como se o que Jesus estivesse fazendo não fosse um sinal substancial).

Que tipo de sinal eles queriam? O que Jesus percebeu em suas intenções?

Jesus parece considerar que foi pedido um tipo específico de sinal, um sinal para ele de que “essa geração”, isto é, o estilo de vida e o pensamento de seus contemporâneos judeus, estava determinada a não ouvir a mensagem que ele anunciava, determinada a seguir seu próprio caminho, a lutar pelo reino em seus próprios termos.

Jesus estava apostando sua própria vocação nos sinais do reino de Deus que ele estava fazendo. Se os fariseus não pudessem (ou não devessem) enxergar isso, era porque a noção do reino para eles era radicalmente diferente de Jesus.

O confronto de visões de reino continuou até alcançar o seu clímax na crucificação de Jesus.

Eis porque Jesus avisou os discípulos contra o “fermento” dos fariseus e de Herodes.

Os judeus usavam fermento para fazer o pão do dia a dia, mas no tempo de Páscoa o fermento era proibido, a fim de lembra-los de quando eles estavam com pressa para deixar sua escravidão no Egito. Naquela ocasião, eles apenas tinham tempo para fazer pão sem fermento.

Agora, Jesus fala de “fermento”, não para alertar os discípulos sobre o tipo errado de pão, mas para colocar eles em guarda contra o tipo errado de visão de reino.

Os fariseus estavam diluindo a visão: eles queriam que Deus estabelecesse um reino para o benefício dos judeus que pudessem observar a lei com grande rigor e não para beneficiar o grupo mais amplo que Jesus tinha em mente.

Herodes e seus comparsas estavam diluindo a visão: eles queriam Deus para estabelecer sua família real como os verdadeiros reis de Israel.

A visão de reino de Jesus era muito diferente. A multiplicação extraordinária de alimentos apontava para ela e assegurava aos discípulos sobre o que estava realmente acontecendo.

Era urgente que eles entendessem a mensagem.

Jesus, nesse contexto, pode ver os sinais de crescente hostilidade. É vital que os discípulos se deem conta do que ele está fazendo e por quê, pois o tempo está vindo rapidamente, quando eles terão de ir para Jerusalém com uma missão, não de alimentar pessoas famintas, mas para desafiar o coração do sistema.

E os discípulos apenas estarão prontos e desejarão segui-lo se eles perceberem que Jesus não é apenas alguém que cura, não é apenas um profeta. Ele é algo mais, algo que coloca os fariseus e mesmo a realeza de Herodes em (ao menos) segundo plano.

Como bom professor, Jesus não dá a eles a resposta diretamente. Eles deveriam se esforçar para encontrar a resposta por eles mesmos. 

Jesus já está apontando para o que é óbvio! Por que eles não podem chegar à conclusão?

No meio disso tudo, Jesus cita o profeta Jeremias (5.21). [“Vocês têm olhos e não enxergam; têm ouvidos e não escutam”] Essa não é apenas uma maneira poética de dizer “Eu não posso acreditar o quanto vocês estão cegos?” É, na verdade, um jeito de dizer “Vocês estão em perigo de seguir o caminho dos israelitas nos dias de Jeremias!”

Qual era o problema daqueles dias?

Com certeza, havia muitos com o mesmo problema que Jesus viu nos fariseus e em Herodes.

As pessoas estavam tão apegadas em suas próprias preocupações, e tão indiferentes à injustiça e à maldade em sua sociedade, que Deus não tinha alternativa a não ser abandoná-los em seu próprio destino na mão de estrangeiros.

Se eles, efetivamente, adoram outros deuses, esses outros deuses (e seus devotos) terão poder sobre eles.

Isso é o que está no centro da advertência de Jesus contra seus contemporâneos.

Quando você observa uma corrida de canoagem, parece excitante e perigoso. Mas, quando você participa de uma, percebe que há momentos quando as coisas vão rápidas demais. Você sai da água tranquila para a agitação furiosa, na descida de uma corredeira, de uma hora para outra. Você precisa ter habilidade nos remos e movimentos precisos para chegar ao fim do trajeto.

O que Marcos está descrevendo aqui é um momento como esse. É o momento quando Jesus se dá conta que ele está descendo a corredeira muito rápido.

A confrontação entre sua visão de reino e a de seus rivais está vindo de forma acelerada. Ele está ansioso para os discípulos entenderem o que está acontecendo.

Então, surge uma questão para nós:

Se nós entendemos qual era a missão de Jesus e fazemos dela a fundação de nossa fé e esperança, será que nós entendemos o que ela está fazendo nesse exato momento, não apenas em nossa vida, mas em nosso mundo?

O que faria Jesus “suspirar profundamente” hoje?

E a nosso respeito? O que faria Jesus dizer, como um professor frustrado, “Vocês ainda não entenderam?”.


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